Errar é humano, perdoar é divino!
Mas aconteceu de conversando com uma pessoa me ocorrer algo sobre ética! A Ética é uma desgraça! Veja bem: Cem bípedes da variedade em questão homo sapiens criados no meio da natureza corrompida, no seio da sociedade de consumo! O Apocalipse! Mas deixa quieto! O Caso é que dos cem bípedes, embora a proporção possa ser de um pra mil sabe o que é ética! Não estou falando de um sistema político, religioso ou familiar. Estou falando de alguma média aritmética filosófica, se é que isso existe. Mais ou menos algo que não te deixe dormir em paz, tipo: Nunca falar mal de quem você ama. Nunca se aproveitar de alguém que não pode se defender, mesmo que você morra de vontade! Não extrapolar em nenhum sentido. Acho que é mais ou menos o TAO, só que um TAO ocidental, algo que possamos compreender. Pode ser que as pessoas não entendam, vamos lá... Algo como Henry David Thoreau, tá bem? Sei que mirei muito alto, algo assim! O erro do ponto de vista religioso é muito bom: Deus perdoa! O crime pode ser punido! Quem o comete (pecado ou crime) tem sua forma de penitência!Pode ser que não tenha! Mas quando se está só com a consciência sem desculpa de errar, é duro! Eu lembro de alguém me dizendo que não podia errar; agora entendo! O erro pra quem deita a cabeça no travesseiro, para quem esteja completamente sóbrio, completamente atento, é indesculpável!E não estou falando de filosofia, não de uma maneira formal, como Spinoza. Sei que tem gente que tem alergia a que os amadores discutam certas questões, mas entedam: é inevitável! A ética! A ética! Miséria! Por que todos não são inconscientes? Isso é a coisa que só deveria acontecer se fosse a todas as pessoas ao mesmo tempo. Na escola, desde que se nasce... Senão, esses éticos estão em desvantagem! Uma desvantagem cruel! Já dizia Caetano: Se você tem uma idéia incrível, é melhor fazer uma canção. Está provado que só é possível filosofar em alemão!
Lapada na Rachada
Blog sobre literatura. Memorialista e humorista.
terça-feira, 13 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
Coisas boas
Fico lembrando do tempo das casas de farinha. Apenas quem viveu sabe o que é. Meu pai comprava os prédios e os demolia para vender os tijolos, a madeira. Nós ajudávamos, as vezes. Melhor mesmo que destruir, era fazer farinha. Os campos onde a mandioca estava plantada pareciam abandonados. Ficavam em baixo de mato por dois anos, dois ciclos completos da cultura. A agricultura no agreste de Pernambuco ainda é no lombo de burro. Há poucos tratores, quase nenhuma máquina. Os burrinhos eram arreados com cangalhas trançadas de cipó, cheias da raiz. As casas de farinhas em volta eram cinco que eu me lembro: Seu Aristides, Tio João, Pedro Cordeiro, Seu Brás, Tio Zé... A vida na casa de farinha tinha um ritmo próprio. Até uma moeda própria cunhada com zinco e pintada de diversas cores, para sinalizar o tanto de toneladas de mandiocas que as pessoas raspavam. Não tinham descascadores... Faziam uma pilha de mandioca na sua frente e a gente começava raspar, sentado, com as raízes apoiadas nas pernas. A conversa rolava solta. Meu pai não gostava que a gente trabalhasse, mas assim que ele saía para o trabalho, nós corríamos lá. Raspávamos, três, quatro toneladas em um dia, ouvindo estórias de assombrações e causos. o contador mais divertido era o meu tio João. Ele era especial porque inventava várias máquinas esquisitas na sua oficina. Sua casa de farinha era de taipa. tinha um triturador manual, movido a manivela. Era divertidíssimo! Depois de prensada e extraída a goma, ele fazia enormes beijus de coco para a gente comer com café. Em volta da casa de farinha tinha um bosque de cajueiros, onde as frutas exalavam seu cheiro impregnante e abelhas moravam. Era comum, sairmos de lá corridos de um maribondo. O triste é que depois que as pessoas mais velhas foram morrendo ou envelhecendo as casas de farinha perderam sua razão de existir. Hoje os jovens não sabem fazer farinha. Tem vergonha de ser agricultores e por conta dessa vergonha, um monte de jovens na idade de se aposentar, não pôs na identidade que é agricultor. Passaram a vida inteira em Lagoa dos Gatos. Sem assistência de forma alguma. o sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade só serve para encaminhar os documentos para a aposentadoria. A maioria das pessoas não sabem o que é um agrônomo. Sequer adubam suas terras. E não falo de adubo químico. Seguro rural, ninguém tem ideia. A agricultura praticada ainda é no nível básico e primitivo da enxada. Destoca-se o terreno, encoivara-se o mato. Planta-se na terra esturricada e come-se o que der. Os jovens saem da cidade sem sequer terem cultivado uma horta. Exatamente como eu! Vem aprender a viver, a trabalhar no sudeste, longe do carinho e compreensão dos seus pais. Caso estejam em casa, dependem da aposentadoria dos pais para sustentarem os filhos. De braços cruzados, jogam futebol e passarinham... As meninas sonham e são puxadas para uma realidade não menos dura. Hoje, pelo menos a educação melhorou enormemente. Mas, a vocação agrícola do município é inegável, mesmo com a abstenção das autoridades para qualificar mão-de-obra. Temos grandes mercados consumidores no entorno. Caruaru, Recife, Alagoas. Já fomos um dos maiores produtores de hortifruti do estado. Perdeu-se o gosto. O orgulho de cultivar a terra. E isso acontece por uma dicotomia engraçada, entre achar as coisas feitas com a mão pouco importantes, em detrimento das atividades intelectuais. Mas eu gostaria de saber o que esses senhores todos, inclusive os iletrados comem...
sábado, 3 de abril de 2010
Tempos bons
Sábado de chuva no sul de Minas. Um sábado nebuloso em cima da Serra da Mantiqueira.Passam navios fantasmas de nuvens empurrando as folhas da mata, no meu quintal. O vento quase dobra os eucaliptos e por fim, derruba alguns pelas raízes, com a ajuda dos cupins... Um frio, aproximando das temperaturas frias que faz os morangos serem mais vermelhos. É um belo dia! Meu marido tem vontade de tacar o sapato em mim quando digo isso... Mas, é verdade! É um belo dia. Para ouvir uma música um pouco mais animada e para fazer faxina. Para cozinhar e tomar um vinho abraçada, perto do fogo! É uma forma diferente de ver essas coisas. O ser humano está sempre insatisfeito. Quando chove, é ruim. Quando faz calor, é muito quente! Quando é frio, Deus me livre! E aqui é muito frio! Mas é gostoso assim mesmo! Gosto especialmente dos dias nublados. Aqui é um caminho natural para as nuvens porque é o topo da serra. Elas naturalmente passam por nós e engolem, empurram, mostram o que é curvar-se. Quando saio de manhã, vejo andorinhas brincando nos espaços em que as nuvens se abrem. Aproveitam o espaço para ficar como um aeroplano com um coração pulsante. É muito lindo! Os pássaros se divertem, vestidos de pena e pegando carona no vento que faz o capim se curvar. As plantações de milho estão douradas. As espigas endureceram, os campos estão sendo revolvidos. O gado olha para a estrada curioso! O vento daqui tem algo de alcoolico: minha cabeça se eleva como se eu tivesse entornado umas duas doses de algo forte, uns quarenta graus de álcool em meu corpo. Sorrio sem sentir os dentes. as folhas dos eucaliptos dançam felizes e embriagadas. Felipe sorri da minha ideia. Essa mãe é doida mesmo! Mas o dia está aí, novo, vibrante e cheio de vento alucinógeno!
sexta-feira, 2 de abril de 2010
O Jumento
Quando fico pensando no bicho que eu gostaria de ser, caio na risada, porque efetivamente já me tornei o bicho que eu seria se pudesse. Por fora, não dá pra perceber muito. É algo como ter um motor de ferrari numa carcaça de fusca 79, mas tudo bem. Acho que algo em mim denuncia meu jumento interior. Deve ser os olhos. Sei que seria mais bonitinho escolher um bichinho mais meigo, porém, seria tangenciar a verdade como um ônibus espacial em direção ao sol. não adianta: para ser sincera eu devo admitir que sou um jumento. quer ver?
Tente, pelo menos por brincadeira tirar o jumento do lugar quando ele empaca! Não vai! Não vai puxado, não vai arrastado, não vai torturado. Nesses casos, é melhor dar logo um tiro na cabeça. Jumento não tem fama de teimoso a toa. Está lá, traquilo, carregando seu pesinho, suas cangalhas, quando de repente, empaca, não vai nem a pau. E zurra nas horas certas como ajustado por um estranho relógio. É sentimental e fiel. Mas nem isso o impede de arreliar o dono. E tem dono. Um jumento nunca está ao deus dará. Tem lá suas utilidades nem que seja para virar carne seca. É duro, resistente e bondoso. O tamanho não é sinônimo de fraqueza. Ah! Essa é boa: acha qualquer pasto o paraíso. Adora chuva. Sente a chuva de longe e comemora zurrando. Corre atrás quando está apaixonado. É capaz de derrubar cercas, pular precipício, morrer afogado, tudo pela sua personalidade jumentícia. Por outro lado, progride pouco. Um jumento não pode ser o dono do mundo, certo? Alexandre tinha Bucéfalo. Os grandes homens sempre tiveram uma boa montaria. Eu ando a pé, meu jumento interior anda nos cascos... Quando ri, mostra os dentes. Quando é judiado, mete coice pra cima. Não gosta de carregar peso, por isso vai devagar...
... Mas, é confiável como uma botija enterrada no quintal.
... Não deixa nunca o dono na mão.
... Faz o trabalho duro.
... Mesmo suado continua trabalhando, se o dono acha ruim, deveria saber como soa as reclamações humanas em suas orelhas sensíveis...
... O jumento é nosso irmão. Já dizia Luis Gonzaga.
... Apesar de não ser um gênio, faz o que é necessário no momento certo e em troca de pouca coisa.
... O jumento sabe ser feliz. Vide o burrinho Pedrês. Tem um olhar premonitório. O jumento tem intuição, acredite! um jumento pode prever o futuro muito bem. Duvida?
Tente, pelo menos por brincadeira tirar o jumento do lugar quando ele empaca! Não vai! Não vai puxado, não vai arrastado, não vai torturado. Nesses casos, é melhor dar logo um tiro na cabeça. Jumento não tem fama de teimoso a toa. Está lá, traquilo, carregando seu pesinho, suas cangalhas, quando de repente, empaca, não vai nem a pau. E zurra nas horas certas como ajustado por um estranho relógio. É sentimental e fiel. Mas nem isso o impede de arreliar o dono. E tem dono. Um jumento nunca está ao deus dará. Tem lá suas utilidades nem que seja para virar carne seca. É duro, resistente e bondoso. O tamanho não é sinônimo de fraqueza. Ah! Essa é boa: acha qualquer pasto o paraíso. Adora chuva. Sente a chuva de longe e comemora zurrando. Corre atrás quando está apaixonado. É capaz de derrubar cercas, pular precipício, morrer afogado, tudo pela sua personalidade jumentícia. Por outro lado, progride pouco. Um jumento não pode ser o dono do mundo, certo? Alexandre tinha Bucéfalo. Os grandes homens sempre tiveram uma boa montaria. Eu ando a pé, meu jumento interior anda nos cascos... Quando ri, mostra os dentes. Quando é judiado, mete coice pra cima. Não gosta de carregar peso, por isso vai devagar...
... Mas, é confiável como uma botija enterrada no quintal.
... Não deixa nunca o dono na mão.
... Faz o trabalho duro.
... Mesmo suado continua trabalhando, se o dono acha ruim, deveria saber como soa as reclamações humanas em suas orelhas sensíveis...
... O jumento é nosso irmão. Já dizia Luis Gonzaga.
... Apesar de não ser um gênio, faz o que é necessário no momento certo e em troca de pouca coisa.
... O jumento sabe ser feliz. Vide o burrinho Pedrês. Tem um olhar premonitório. O jumento tem intuição, acredite! um jumento pode prever o futuro muito bem. Duvida?
O livro
Eu passei minha vida inteira, desde que tenho dez anos, lendo oito, nove, dez horas por dia. Quando terminei o primário, meu pai não me deixou estudar mais. Foi preciso uma revolução em casa para que eu pudesse voltar, com quinze anos para a quinta série. A coisa que mais ouvi na vida foi: o que você está fazendo aqui? É claro que eu não podia tirar notas ruins, nem ser tão atrapalhada. Na verdade, meu sonho era estudar no Cenecista. A gente não tinha grana. As meninas da biblioteca: Rosa e Dui pediram a um vereador e ele bancou o primeiro ano lá no colégio. Naquele tempo o Cenecista era um sonho. Quem viveu aquilo, sabe! Fizeram um pedido e em 1996 eu estava lá, na sexta série, com aqueles professores com os quais eu tinha sonhado. Eu acompanhava os deveres de quem estudava. E lia, lia, lia. Meu pai perguntava aonde eu pretendia chegar. E eu sabia que era longe. Eu só submergia das leituras nas horas das refeições. Varria a casa, lavava a louça, e sentava na cadeira de balanço até ficar embriagada. Lia tudo, sem entender. Meu estômago era como um avestruz, botava tudo para dentro... Quando eu tinha que levantar os olhos do papel o mundo me parecia muito feio, muito injusto, muito incolor. Só preciso dizer de meu senso prático que eu ia cortar vassouras no mato e esquecia de tudo, lá olhando as diferenças nos tons do capim, entre seco e verde. Dessa mesma época eu já escrevia. Acho que eu sempre escrevi. Mesmo antes de saber. Minha avó comprava um bloco de papel e eu anotava versos. Eu não tinha assunto, mas aprendi métrica de ouvir repente na Rádio Liberdade de Caruaru. Adoro aboio. Fico toda arrepiada com o sentimento que os boiadeiros tem. Então, no dia do lançamento do meu primeiro livro, a prefeitura de Guarulhos deixou eu usar a biblioteca municipal para a festa. Tinha mesa de autógrafos e tudo. Eu era tão dura, que a foto no meu livro é da minha irmã mais nova. Tive que tirar cópia de vários documentos e não tinha grana da foto. Ainda hoje o pessoal brinca comigo. Pensam que é vaidade eu ter usado a foto dela, porque ela é bem lindinha. Mas não é nada disso... Bem, quando o leitor chegou para mim e assinou um cheque pagando pelas palavras que eu havia escrito, entalei. Lembrei de meu pai. De como ele tinha me empurrado para frente. Ele é um grande cara! Eu o amo e o admiro! Sou exatamente como ele, não posso ouvir um não que resisto imediatamente. Claro que o livro é de poesia e é um livro meia boca. Mas o fato é que alguém pagou por ele e eu me senti como se tivesse ganho na megasena. Porque não existe nada melhor do que a gente está certo e saber que Deus está do nosso lado. Naquele tempo e agora para mim, isso tem valido mais do que a opinião dos outros sobre mim. E até do que a minha própria opinião as vezes.
A diferença entre educação e conhecimento
Numa aula do cursinho popular da faculdade de economia da USP, tinha uma professora muito especial. Era alta, cabelos ruivos e dava aulas de geografia. Ela era um furacão. Tinha parado o curso de geografia duas vezes para estudar alemão e depois, astronomia. Aprendi com ela quem era Aziz Ab'Saber e Carl Sagan. Isso não é pouco! Também não é pouco ser notada numa classe com cento e cinquenta alunos. Eu prestei geologia naquele ano. Isso foi em 2001. A USP era um sonho! Meu sonho era ser uma traça para morar na universidade, melhor, na biblioteca. Eu acordava feliz e ia numa maratona, sacolejando três horas, cortando São Paulo inteira até chegar lá. Levava uma marmitinha de frutas e iogurte. Naquele ano, enquanto eu trabalhava vendendo incensos numa barraquinha em frente ao cemitério de Guarulhos, gastei o dinheiro que tinha e o que não tinha. A professora Angélica chegou para mim um dia. Perguntou, inquiriu e depois, me olhando nos olhos, disparou: Existe uma diferença enorme entre educação e conhecimento... A entrada num mundo como esse pode ser aberta ou facilitada, pode ser comprada, por muitos motivos e nem sempre o melhor é o que acontece. Mas o conhecimento, ele vai com a gente, independente de tudo! O que a gente aprende, fica! Eu fui pra casa pensando, pensando! Fazia um tempo que eu vinha me questionando sobre uma série de coisas. Ao meu redor, um monte de gente insatisfeita. Gente com diplomas, com carreira, até com dinheiro. Não estou dizendo que as pessoas sem essas coisas estivessem melhor! Mas eu estava questionando a satisfação! O que faz com que as pessoas sejam felizes? Preciso dizer que não passei no vetibular? Mas, posso dizer, sem dúvida, que eu ganhei uma coisa mais importante, sem demagogia!
A aula de matemática
Constantemente fico pensando em pobreza. Será que o meio é realmente responsável por quem somos? Quando eu tinha dezesseis, dezessete, eu achava que sim. Tinha acabado de ler o Manifesto Comunista. Passei os dezoito anos tentando ir pra Colômbia, pras Farcs. Mas não consegui. provavelmente não me empenhei muito... Quando conheci o Di, eu era uma dessas pessoas tão amarguradas que dava para ver minhas tristezas montadas em minhas costas. o sofrimento sulcava meu rosto. Eu era severa e dura, mas só na casca. Aí, ele me mostrou a beleza! Ele me falou sobre esse outro lado, essa outra porção da vida. Demorei alguns anos para entender... Isso só aconteceu quando eu estava grávida do Felipe. Eu senti vontade de cozinhar melhor do que fazer miojo, então fui treinando. Eu passava as roupinhas dele e o imaginava conversando comigo sobre livros, sobre videogame. Nem meu marido, nem minha mãe achavam que eu fosse dar uma mãe como sou. Mas, no fundo eu sabia. A gente sempre sabe! Agora eu tenho algumas boas idéias sobre o que é desejável e possível para o nosso mundo, para os nossos jovens. É fácil lembrar aquela garota pedindo ao professor que lhe desse uma aula para fazer o supletivo. Eu só precisava de ajuda em matemática. Disse assim: olha, eu não tenho dinheiro. E ele: tudo bem! No sábado eu fiquei lá o dia inteiro. Ele mandava dizer que não estava. Como eu estivesse esperando no salão da professora de português, pude sentir que ela ia ficando penalizada. Eu queria chorar. Até que não aguentei mais. Eu ouvi que nunca seria nada um milhão de vezes, mas na mesma proporção, algumas pessoas me diziam como eu era inteligente. Então, saí de lá chorando, uns três quilômetros porque eu não tinha grana sequer pra pagar um ônibus, eu não tinha grana nem pra usar perfume... No outro dia, fui fazer a prova. Eu sabia que levaria bomba em matemática. O diretor do colégio já tinha me chamado pra dizer que era muito difícil fazer as provas estudando sozinha. Consegui dinheiro dando aulas de legislação de trânsito para uma conhecida que tiraria a carta de habilitação. Estudei meses, dias e dias, na frente do açude no Entrocamento. Meu ponto fraco era matemática. E fiquei por meio ponto. Veja o que é o destino: meu sonho sempre foi estudar agronomia. Quando cheguei em São Paulo e pude estudar, paguei uma escola particular e terminei o ensino médio. Fiz o Enem. Tirei nove em redação e média de oito e meio e, consegui uma bolsa integral de estudos em Agronomia. Mas na hora do encontro com a assistente social: não consegui a bolsa, porque aquela matéria que eu paguei numa escola particular fazia o governo entender que eu tinha concluído o ensino médio em escola particular. Aí, eu comecei chorar. Agora faço isso ainda mais constantemente. Mas não foi por tristeza. Eu optei por ser feliz e não guardar mágoa. A minha comoção, é porque eu consegui tudo sozinha. Essa cachola que Deus me deu. E com diploma ou sem diploma, sei do que sou capaz! Aí, pensando sobre pobreza, sobre a cidade, sobre os nossos jovens, vejo o quanto eles são puxados pra baixo. É difícl fazer da pedra uma alavanca moral e remover os obstáculos. O que então diferencia alguém que consegue de alguém que se deixa esmagar sobre essas mesmas dificuldades?
Assinar:
Comentários (Atom)