sexta-feira, 2 de abril de 2010

A aula de matemática

Constantemente fico pensando em pobreza. Será que o meio é realmente responsável por quem somos? Quando eu tinha dezesseis, dezessete, eu achava que sim. Tinha acabado de ler o Manifesto Comunista. Passei os dezoito anos tentando ir pra Colômbia, pras Farcs. Mas não consegui. provavelmente não me empenhei muito... Quando conheci o Di, eu era uma dessas pessoas tão amarguradas que dava para ver minhas tristezas montadas em minhas costas. o sofrimento sulcava meu rosto. Eu era severa e dura, mas só na casca. Aí, ele me mostrou a beleza! Ele me falou sobre esse outro lado, essa outra porção da vida. Demorei alguns anos para entender... Isso só aconteceu quando eu estava grávida do Felipe. Eu senti vontade de cozinhar melhor do que fazer miojo, então fui treinando. Eu passava as roupinhas dele e o imaginava conversando comigo sobre livros, sobre videogame. Nem meu marido, nem minha mãe achavam que eu fosse dar uma mãe como sou. Mas, no fundo eu sabia. A gente sempre sabe! Agora eu tenho algumas boas idéias sobre o que é desejável e possível para o nosso mundo, para os nossos jovens. É fácil lembrar aquela garota pedindo ao professor que lhe desse uma aula para fazer o supletivo. Eu só precisava de ajuda em matemática. Disse assim: olha, eu não tenho dinheiro. E ele: tudo bem! No sábado eu fiquei lá o dia inteiro. Ele mandava dizer que não estava. Como eu estivesse esperando no salão da professora de português, pude sentir que ela ia ficando penalizada. Eu queria chorar. Até que não aguentei mais. Eu ouvi que nunca seria nada um milhão de vezes, mas na mesma proporção, algumas pessoas me diziam como eu era inteligente. Então, saí de lá chorando, uns três quilômetros porque eu não tinha grana sequer pra pagar um ônibus, eu não tinha grana nem pra usar perfume... No outro dia, fui fazer a prova. Eu sabia que levaria bomba em matemática. O diretor do colégio já tinha me chamado pra dizer que era muito difícil fazer as provas estudando sozinha. Consegui dinheiro dando aulas de legislação de trânsito para uma conhecida que tiraria a carta de habilitação. Estudei meses, dias e dias, na frente do açude no Entrocamento. Meu ponto fraco era matemática. E fiquei por meio ponto. Veja o que é o destino: meu sonho sempre foi estudar agronomia. Quando cheguei em São Paulo e pude estudar, paguei uma escola particular e terminei o ensino médio. Fiz o Enem. Tirei nove em redação e média de oito e meio e, consegui uma bolsa integral de estudos em Agronomia. Mas na hora do encontro com a assistente social: não consegui a bolsa, porque aquela matéria que eu paguei numa escola particular fazia o governo entender que eu tinha concluído o ensino médio em escola particular. Aí, eu comecei chorar. Agora faço isso ainda mais constantemente. Mas não foi por tristeza. Eu optei por ser feliz e não guardar mágoa. A minha comoção, é porque eu consegui tudo sozinha. Essa cachola que Deus me deu. E com diploma ou sem diploma, sei do que sou capaz! Aí, pensando sobre pobreza, sobre a cidade, sobre os nossos jovens, vejo o quanto eles são puxados pra baixo. É difícl fazer da pedra uma alavanca moral e remover os obstáculos. O que então diferencia alguém que consegue de alguém que se deixa esmagar sobre essas mesmas dificuldades?

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