sexta-feira, 2 de abril de 2010
O livro
Eu passei minha vida inteira, desde que tenho dez anos, lendo oito, nove, dez horas por dia. Quando terminei o primário, meu pai não me deixou estudar mais. Foi preciso uma revolução em casa para que eu pudesse voltar, com quinze anos para a quinta série. A coisa que mais ouvi na vida foi: o que você está fazendo aqui? É claro que eu não podia tirar notas ruins, nem ser tão atrapalhada. Na verdade, meu sonho era estudar no Cenecista. A gente não tinha grana. As meninas da biblioteca: Rosa e Dui pediram a um vereador e ele bancou o primeiro ano lá no colégio. Naquele tempo o Cenecista era um sonho. Quem viveu aquilo, sabe! Fizeram um pedido e em 1996 eu estava lá, na sexta série, com aqueles professores com os quais eu tinha sonhado. Eu acompanhava os deveres de quem estudava. E lia, lia, lia. Meu pai perguntava aonde eu pretendia chegar. E eu sabia que era longe. Eu só submergia das leituras nas horas das refeições. Varria a casa, lavava a louça, e sentava na cadeira de balanço até ficar embriagada. Lia tudo, sem entender. Meu estômago era como um avestruz, botava tudo para dentro... Quando eu tinha que levantar os olhos do papel o mundo me parecia muito feio, muito injusto, muito incolor. Só preciso dizer de meu senso prático que eu ia cortar vassouras no mato e esquecia de tudo, lá olhando as diferenças nos tons do capim, entre seco e verde. Dessa mesma época eu já escrevia. Acho que eu sempre escrevi. Mesmo antes de saber. Minha avó comprava um bloco de papel e eu anotava versos. Eu não tinha assunto, mas aprendi métrica de ouvir repente na Rádio Liberdade de Caruaru. Adoro aboio. Fico toda arrepiada com o sentimento que os boiadeiros tem. Então, no dia do lançamento do meu primeiro livro, a prefeitura de Guarulhos deixou eu usar a biblioteca municipal para a festa. Tinha mesa de autógrafos e tudo. Eu era tão dura, que a foto no meu livro é da minha irmã mais nova. Tive que tirar cópia de vários documentos e não tinha grana da foto. Ainda hoje o pessoal brinca comigo. Pensam que é vaidade eu ter usado a foto dela, porque ela é bem lindinha. Mas não é nada disso... Bem, quando o leitor chegou para mim e assinou um cheque pagando pelas palavras que eu havia escrito, entalei. Lembrei de meu pai. De como ele tinha me empurrado para frente. Ele é um grande cara! Eu o amo e o admiro! Sou exatamente como ele, não posso ouvir um não que resisto imediatamente. Claro que o livro é de poesia e é um livro meia boca. Mas o fato é que alguém pagou por ele e eu me senti como se tivesse ganho na megasena. Porque não existe nada melhor do que a gente está certo e saber que Deus está do nosso lado. Naquele tempo e agora para mim, isso tem valido mais do que a opinião dos outros sobre mim. E até do que a minha própria opinião as vezes.
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