domingo, 4 de abril de 2010

Coisas boas

Fico lembrando do tempo das casas de farinha. Apenas quem viveu sabe o que é. Meu pai comprava os prédios e os demolia para vender os tijolos, a madeira. Nós ajudávamos, as vezes. Melhor mesmo que destruir, era fazer farinha. Os campos onde a mandioca estava plantada pareciam abandonados. Ficavam em baixo de mato por dois anos, dois ciclos completos da cultura. A agricultura no agreste de Pernambuco ainda é no lombo de burro. Há poucos tratores, quase nenhuma máquina. Os burrinhos eram arreados com cangalhas trançadas de cipó, cheias da raiz. As casas de farinhas em volta eram cinco que eu me lembro: Seu Aristides, Tio João, Pedro Cordeiro, Seu Brás, Tio Zé... A vida na casa de farinha tinha um ritmo próprio. Até uma moeda própria cunhada com zinco e pintada de diversas cores, para sinalizar o tanto de toneladas de mandiocas que as pessoas raspavam. Não tinham descascadores... Faziam uma pilha de mandioca na sua frente e a gente começava raspar, sentado, com as raízes apoiadas nas pernas. A conversa rolava solta. Meu pai não gostava que a gente trabalhasse, mas assim que ele saía para o trabalho, nós corríamos lá. Raspávamos, três, quatro toneladas em um dia, ouvindo estórias de assombrações e causos. o contador mais divertido era o meu tio João. Ele era especial porque inventava várias máquinas esquisitas na sua oficina. Sua casa de farinha era de taipa. tinha um triturador manual, movido a manivela. Era divertidíssimo! Depois de prensada e extraída a goma, ele fazia enormes beijus de coco para a gente comer com café. Em volta da casa de farinha tinha um bosque de cajueiros, onde as frutas exalavam seu cheiro impregnante e abelhas moravam. Era comum, sairmos de lá corridos de um maribondo. O triste é que depois que as pessoas mais velhas foram morrendo ou envelhecendo as casas de farinha perderam sua razão de existir. Hoje os jovens não sabem fazer farinha. Tem vergonha de ser agricultores e por conta dessa vergonha, um monte de jovens na idade de se aposentar, não pôs na identidade que é agricultor. Passaram a vida inteira em Lagoa dos Gatos. Sem assistência de forma alguma. o sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade só serve para encaminhar os documentos para a aposentadoria. A maioria das pessoas não sabem o que é um agrônomo. Sequer adubam suas terras. E não falo de adubo químico. Seguro rural, ninguém tem ideia. A agricultura praticada ainda é no nível básico e primitivo da enxada. Destoca-se o terreno, encoivara-se o mato. Planta-se na terra esturricada e come-se o que der. Os jovens saem da cidade sem sequer terem cultivado uma horta. Exatamente como eu! Vem aprender a viver, a trabalhar no sudeste, longe do carinho e compreensão dos seus pais. Caso estejam em casa, dependem da aposentadoria dos pais para sustentarem os filhos. De braços cruzados, jogam futebol e passarinham... As meninas sonham e são puxadas para uma realidade não menos dura. Hoje, pelo menos a educação melhorou enormemente. Mas, a vocação agrícola do município é inegável, mesmo com a abstenção das autoridades para qualificar mão-de-obra. Temos grandes mercados consumidores no entorno. Caruaru, Recife, Alagoas. Já fomos um dos maiores produtores de hortifruti do estado. Perdeu-se o gosto. O orgulho de cultivar a terra. E isso acontece por uma dicotomia engraçada, entre achar as coisas feitas com a mão pouco importantes, em detrimento das atividades intelectuais. Mas eu gostaria de saber o que esses senhores todos, inclusive os iletrados comem...

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