sexta-feira, 2 de abril de 2010
A alma da Lagoa
Foi quando puseram uma estátua de gato no meio do açude, entre o miolo do centro e o Tambor debruçado através dos coqueiros para a sombra lodosa das águas. Não havia mais gatos maracajás ali, tampouco portugueses... O pouco espírito dos jovens debatia-se diante da nacessidade de sobreviver... É necessário ter um padrinho político! É necessário ser forte! Nós somos da terra do Poeirão. Vale uma novela da globo! O Poeirão! Um dia, num restaurante no Bixiga eu falava disso tudo, diante de uma platéia faminta e espantada! Não é surrealismo, é Lagoa dos Gatos! Eu fui arrancada de lá como uma árvore com suas raízes, mas estou lá: algo de mim assombra a cidade. Entre a igreja e a praça Padre Cícero; entre o Lajedo e o Entrocamento; entre Cupira e o ocaso. Quando tinha dezessete anos, eu assistia o sol nascendo no Peri-Peri, atrás daquela árvore da fazenda. A árvore se incendiava com um sol líquido, meu coração pegava fogo. Eu comia as madrugadas e saía, era um modelo de morte que eu sonhava. Ia escrevendo na areia pela beira das estradas: envelhecemos: envilecemos! Mas aprendi que a gente não sai. A gente nunca sai. A geografia é interior e nos habita. E os sonhos vão também, como brincos de bijouteria comprados na festa do dia vinte.
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